Muitos
desses problemas já se encontram em estado de urgência, seja pela falta de
recursos (e também pelo seu uso sem controle), seja pela falta de um
planejamento (elaborado pelos órgãos responsáveis) que definisse prioridades.
Somente parte da população brasileira tem acesso ao
saneamento básico. Estendê-lo a todos custaria cerca de 500 bilhões de reais ao
Estado, logo, só poderia ser feito ao longo de muitos anos. Não há medidas
mágicas que possam solucionar esse problema a curto/médio prazo.
Cabe lembrar que todos os municípios brasileiros
devem ter planos de saneamento que contemplem serviços de abastecimento de
água, tratamento de esgoto, manejo de resíduos sólidos urbanos e controle das
inundações. Contudo, desde que a Lei Federal nº 11.445 de 2007 foi promulgada,
o prazo para cumprimento dessa exigência já foi prorrogado por três vezes.
Apenas um terço das cem maiores cidades do País possui tais planos. Se já é
difícil garantir o planejamento de ações essenciais para a manutenção da
qualidade do meio ambiente nos municípios, imagine colocar em prática, por
exemplo, a erradicação dos lixões; a coleta seletiva; a captação e o tratamento
de esgoto; a oferta de água com qualidade e em quantidade suficientes; e o
controle de cheias e inundações.
As crises hídrica e energética, apesar de
inesperadas, poderiam causar um impacto menor se medidas de prevenção e
controle tivessem sido tomadas assim que elas deram os primeiros sinais.
A questão é: devemos agir antes que o problema se
torne gigantesco, como a escassez hídrica. Não deveríamos ter esperado chegar
ao período menos chuvoso dos últimos 80 anos para que as medidas de gestão da
demanda e de uso racional da água fossem aplicadas. Ações simples – como tomar
banhos mais curtos; fechar a torneira ao escovar os dentes e lavar a louça e a
roupa; consertar vazamentos imediatamente; usar vassoura para limpar as
calçadas; e reutilizar a água da chuva – já deveriam fazer parte do hábito das
pessoas. Sim, é uma mudança cultural.
Foto: Shutterstock
No caso da eletricidade, o governo federal, em vez
de promover campanhas com foco no uso consciente da energia, contribuiu para o
crescimento da crise ao reduzir as tarifas de luz em 2013, estimulando o uso de
eletrodomésticos (geladeiras, aparelhos de ar condicionado, televisões etc.)
para os quais criou subsídios e crédito facilitado. A solução adotada – gerar
eletricidade com usinas térmicas para complementar a geração hidroelétrica –
foi insuficiente, em razão da falta d’água, e acabou por aumentar
significativamente o custo de eletricidade, sem falar no aumento da emissão de
gases de efeito estufa.
Outro exemplo de ações desordenadas, que culminaram
recentemente em um acordo, no mínimo inviável, entre a Associação Paulista de
Supermercados (Apas) e o Procon, é o caso das sacolas plásticas na cidade
de São Paulo. Não basta estabelecer leis e regulamentos, a mudança de
comportamento é necessária, uma vez que a questão é muito mais séria. A não utilização
das sacolas plásticas não deve estar condicionada a um bônus, mas à necessidade
de compreender que não existe mais espaço para acúmulo de resíduos e
desperdício, e que os desastres ambientais são, hoje, uma realidade.
Em uma época de ajustes fiscais, estagnação da
economia e aumentos da inflação e do desemprego, gastar recursos com o meio
ambiente parece um contrassenso. Pelo contrário: inúmeras oportunidades de
geração de emprego e renda podem surgir a partir da coleta seletiva e da
reciclagem de resíduos. O setor de serviços pode prosperar com a volta da
prática do conserto e da manutenção de eletrodomésticos e roupas. Novas formas
de geração de eletricidade descentralizada, como o caso da energia solar
fotovoltaica, também podem alavancar importantes setores da economia.
A transformação cultural embasada em um
planejamento sólido e consistente, como vimos, pode ser a principal (senão a
única) resposta para todas as outras transformações, até mesmo para voltarmos a
celebrar, com orgulho, o Dia Mundial do Meio Ambiente. (#Envolverde)
* José Goldemberg é presidente do
Conselho de Sustentabilidade da FecomercioSP. Doutor em Física, foi presidente
da SBPC e da Cesp, além de reitor da USP. Atuou como secretário das pastas de
Ciência e Tecnologia de São Paulo e do Meio Ambiente da Presidência da
República. Também foi ministro da Educação e professor da Universidade de Paris
(França) e Princeton (Estados Unidos). Cristiane Cortezé assessora
do Conselho de Sustentabilidade da FecomercioSP. Integrante do Comitê da
Bacia Hidrográfica do Alto Tietê. Coordenadora do Grupo Técnico da Gestão da
Demanda deste Comitê. Professora dos cursos de Engenharia da FAAP. Bacharel e
Mestre em Engenharia Química. Doutora em Ciências pelo Programa de
Pós-Graduação em Energia (PPGE) da USP.
Postado em: Artigos 2015, Planeta
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